A vida…assim…

“As pessoas são interessantes à primeira vista. Depois, lenta mas seguramente, todos os seus defeitos e loucura se manifestam.”

“Há muito poucas mulheres bonitas que aceitam mostrar em público que pertencem a alguém. Tinha conhecido mulheres suficientes para perceber isto. Eu aceitava-as por aquilo que eram e o amor chegava rara e dificilmente.
Quando aparecia, era habitualmente por razões erradas. Simplesmente porque as pessoas se cansam de recusar o amor e deixam-se ir porque precisam de ir para algum lugar. Depois, começam os problemas.”

 

“Era quase desanimador porque parecia que, quando o stress e a loucura eram eliminados do meu quotidiano, pouco ficava a que me agarrar.”

 

Charles Bukowski 

Livro: Mulheres

Ana Jácomo

 

“É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve,
o riso é farto, e o chope é gelado.
É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo,
nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.
Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada.
E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza.
E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado.
Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente
do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém
que não aceitamos que ele esteja.
Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora.
Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia.
Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não,
exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego,
da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro.
Difícil é amar quem não está se amando.
Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado.
Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica. 

Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem não desiste da gente.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim caminho

Não sei mais escrever, perdi o enrrendo totalmente, perdi o prumo…não sei mais descrever o q se passa aqui dentro…um tanto perdida perdida, um tanto encontrada sem saber traduzir.

O “q” selvagem, chato, impaciente…continua, mas foi acrescentado paz. As minhas verdades mudam comigo, mudei…mutação…inacabado… ingrime…

e seja lá o que for…não tem nome. Não quero a limitação de ter nome,  sou água corrente…tenho vivido, na verdade sempre vivi.

Estupidez tentar escrever e sair assim…tudo em desacordo.

 

“…

Me encontro comigo em algumas esquinas, às vezes me reconheço, normalmente não me percebo, algumas vezes me surpreendo.
Em algumas esquinas te encontro, aí me perco, me desajeito mas dou um jeito
…”

Intimidade- Martha Medeiros

Houve um tempo, crianças, em que a gente não falava de sexo como quem fala de um pedaço de torta. Ninguém dizia Fulano comeu Beltrana, assim, com essa vulgaridade. Nada disso. Fulano tinha dormido com ela. Era este o verbo. O que os dois tinham feito antes de dormir, ou ao acordar, ficava subentendido. A informação era esta, dormiram juntos, ponto. Mesmo que eles não tivessem pregado o olho nem por um instante.

Lembrei desta expressão ao assistir Encontros e Desencontros. No filme, Bill Murray e Scarlett Johansson fazem o papel de dois americanos que hospedam-se no mesmo hotel em Tóquio e têm em comum a insônia e o estranhamento: estão perdidos no fuso horário, na cultura, no idioma, e precisando com urgência encontrar a si mesmos. Cruzam-se no bar. Gostam-se. Ajudam-se. E acabam dormindo juntos. Dormindo mesmo. Zzzzzzzzzzz.

A cena mostra ambos deitados na mesma cama, vestidos, conversando, quando começam a apagar lentamente, vencidos pelo cansaço. Antes de sucumbir ao mundo dos sonhos, ele ainda tem o impulso de tocar nela, que está ao seu lado, em posição fetal. Pousa, então, a mão no pé dela, que está descalço. E assim ficam os dois, de olhos fechados, capturados pelo sono, numa intimidade raramente mostrada no cinema.

Hoje, se você perguntar para qualquer pré-adolescente o que significa se divertir, ele dirá que é beijar muito. Fazer campeonato de quem pega mais. Beijar quatro, sete, treze. Quebram o próprio recorde e voltam pra casa sentindo um vazio estúpido, porque continuam sem a menor idéia do que seja um encontro de verdade, reconhecer-se em outra pessoa, amar alguém instintivamente, sem planejamento. Estão todos perdidos em Tóquio.

Intimidade é coisa rara e prescinde de instruções. As revistas podem até fazer testes do tipo: ?descubra se vocês são íntimos, marque um xis na resposta certa?, mas nem perca seu tempo, a intimidade não se presta a fórmulas, não está relacionada a tempo de convívio, é muito mais uma comunhão instantânea e inexplicável. Intimidade é você se sentir tão à vontade com outra pessoa como se estivesse sozinho. É não precisar contemporizar, atuar, seduzir. É conseguir ir pra cama sem escovar os dentes, é esquecer de fechar as janelas, é compartilhar com alguém um estado de inconsciência.
Dormir juntos é muito mais íntimo que sexo.


Limite

Estranho não poder fazer parte de sua vida, das suas coisas diárias…não só pela distância dos corpos e cidades, mas por um não querer.
Um certo…errado. Uma dúvida…falta de riscos…de risos.

Empurrando com os dedos, talvez precisa-se da  falta de medida no falar.

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

Em poucas palavras

*

Uma sensação de estranheza.Sem nem motivo aparente. Uma hora acho q eh saudade, apertinho no coração. noutra eh vontade de fazer tudo…de ser mais, de viver mais, de ver o quanto sou feliz nessa finitude q me aplaca…dentro desse não poder tudo, que me freia.

No momento só consigo extrair isso de mim…gostaria de mais…porém as vezes tenho que me contentar com poucas palavras.

      

 

O silêncio não é o mesmo

*

Sinto quando tenho que colocar o silêncio para fora eontem não o fiz, o silêncio de agora não será o silêncio de ontem….

Conversando com a Renata (ontem ), uma grande amiga minha, ela me disse:

-Ontem chorei tanto….

-qlq dia eu separo um tempo p chorar.Disse eu.

 -Nossa que… separar tempo pra chorar??mas o choro é tão involuntário, não acho q deva ser programado..
q estranho pensar assim.

-modo de falar. meus dias n tem me permitido parar p isso, tudo mt agitado na cabeça minhas lágrimas caem um pouco semanalmente na terapia, mas fora dela…anda dificil.

-e se v. não tem tempo pra isso, será q não tem algo errado?
aonde entra espaço pra v.?

-nos intervalos rs. pelo menos na vida sentimental…tenho sido intervalos

Essa foi um pouco da conversa de ontem e me deparei com uma realidade que antes não tinha, antes minhas lágrimas rolavam sem pressa, sem tempo…agora dificilmente as sinto e as vezes isso faz falta. Não é vergonha nenhuma. Porém com o tempo fui enxugando tudo aquilo que me fazia doer demais, quis me igualar aos” homens” que não choram, são mais racionais, controlam o que sentem (pelo menos para o lado de fora), muita coisa para mim passou a significar sinônimo de fraqueza. Ainda consigo expressar sentimento na distância, mas na presença ainda me parece dificil, eu tento.

As lágrimas para mim não são sinônimo de fraqueza, mas com toda essa reforma, elas já não se libertam do silêncio tão facilmente, não sei diagnosticar o que aconteceu com elas. Espero que elas voltem, porque fazem falta.

Ontem choveu bastante durante a madrugada, gostaria de ter chorado ontem, doia…mas não tinha lagrima, foi uma dor seca.

Traduzir o silêncio na escrita não é tão fiel quanto as lágrimas que descem sem permissão.

Sem preço

*

Acho que ainda não comentei aqui, mas faço estágio em  um hospital do Rj, trabalho na pediatria. Semana passada foi bastante pesada, por um caso que chegou. Um garoto de 3 anos, internado por causa da Varicela, que evoluio para uma infecção devido a um probleminha que ele tem no sangue.

Segunda (30/08) os médicos me chamaram para dar a noticia de uma aprovável morte encefálica, esperariam 3 dias para o diagnóstico final. Acompanhei a familia até a quinta-feira, dia em que fariam os exames finais, ver doação de orgãos (no qual só poderia ser doado as corneas) e o funeral. De segunda até quinta-feira presenciei lágrimas, negação, desespero dos familiares, confissões, vi fotos…deixei o hospital com o olhar triste do pai. Pensei comigo:

– Segunda-feira(06/09) não vou encontra-lo mais, espero que fiquem com Deus e que Deus os ajudem.

Quando chego hoje, minha supervisora me fala que B. ainda estava no hospital, ela tinha ficado tão surpresa quanto eu com essa noticia. Fui encontrar com o B. e sua mãe, ela estava bastante feliz pelo filho não ter falecido, porém sabe que o estado de saúde é grave. B. está em coma. Mesmo assim todos da equipe ficaram felizes com essa reviravolta do caso.

O dia de hoje foi um dia especial, tive tanta noticia boa, o E. foi para junto dos pais, a R. estava só esperando eu chegar p furar o dedinho (para acompanhar a taxa de açucar) e ir de alta médica.

Tem dias que são tão dificeis, me sinto extremamente impotente em relação a dor do outro, porém mesmo nos dias dificeis vejo como o trabalho do psicologo é de extrema importância nesses momentos, mesmo sem aplacar a dor, o outro pode conseguir elaborar uma outra forma de ver a realidade…Ahhh e os sorrisos recebidos, os abraços, beijos…, não tem preço que pague.

Sou feliz por estar onde estou, fazendo o que faço…nada enche mais meus olhos do que um trabalho realizado, seja com sorrisos ou em meio as lágrimas.